Apêndice B — Ciência aberta e reprodutibilidade
Uma revisão é reprodutível quando outra pessoa, com os materiais publicados, consegue refazer a busca, chegar às mesmas contagens do fluxograma, reconstruir cada decisão de inclusão, reextrair os efeitos e rodar a análise até os mesmos números e rótulos. O PRISMA 2020 transforma essa exigência em itens de relato: registro e protocolo (24a e 24b), emendas (24c) e disponibilidade de formulários, dados extraídos, dados analisados, código e outros materiais (27) (Page, McKenzie, et al. 2021). Este apêndice reúne as regras operacionais que os capítulos distribuem entre protocolo, busca, triagem, IA e relato. O que entra no pacote aberto, arquivo por arquivo, está na Seção 11.5; o texto de relato, na Seção 11.10.
B.1 Regras mínimas
| O quê | Regra | Fonte |
|---|---|---|
| Registro | Registrar o protocolo antes da triagem formal e declarar a etapa em que a revisão estava; em ciências sociais, OSF Registries com o formulário geral de revisão sistemática | Akker et al. (2023, GSRRF–7); Seção 3.3 |
| Mudanças no registro | Registro submetido não se edita; mudanças entram como update, com justificativa, e o registro pode ficar sob embargo por até quatro anos | Center for Open Science (2026) |
| Emendas | Toda emenda é datada e rastreada, e o relato informa a mudança, o motivo e a etapa em que ocorreu | Moher et al. (2015, tabela 3); Page, Moher, et al. (2021, item 24c) |
| Estratégias de busca | Publicar as strings exatamente como foram rodadas, com data da última busca e total por fonte | Rethlefsen et al. (2021, itens 8, 13 e 15) |
| Decisões de seleção | Documentar a decisão sobre todos os registros; listas de incluídos e excluídos por estudo | Lefebvre et al. (2025, MECIR C41); Seção 5.1 |
| Prompts e modelos | Registrar texto integral do prompt e versão do modelo; versões novas em arquivo novo, saídas nunca sobrescritas | Thomas et al. (2026, 19); Seção 12.7 |
| Dados e código | Dizer quais materiais estão públicos e onde; bases limpas em formato reutilizável (CSV), dicionário de variáveis, README e código | Page, McKenzie, et al. (2021, item 27); Page, Moher, et al. (2021, item 27) |
| Repositório | Material suplementar em repositório aberto e permanente, com link no relatório; a Campbell incentiva o compartilhamento segundo os princípios FAIR | Page, Moher, et al. (2021); The Campbell Collaboration (2021, 19–20) |
| Ausência | Revisão sem registro, sem protocolo ou sem dados públicos diz isso nos itens correspondentes | Page, McKenzie, et al. (2021, itens 24-27) |
B.2 Estrutura do projeto e versionamento
A reprodução começa pela organização das pastas. A skill revisao-sistematica cria um projeto com uma pasta por etapa e arquivos de estado na raiz (Seção D.5):
00-protocolo/ protocolo vN, emendas, codebook v0, plano de IA
01-busca/brutos/ exportações das bases, sem edição
01-busca/strings/ versões das strings e do conjunto de estudos-âncora
02-triagem/ lotes, prompts/vN.md, validação
03-textos/pdfs/ textos completos (não vão para o pacote público)
04-qualidade/ julgamentos de risco de viés por domínio
05-decomposicao/ codebook, fichas, base extraída
06-analise/ tabela de efeitos, código R, saídas
07-relatorio/ relatório, fluxograma, checklists, declaração de IA
dados/ registros.csv, registros_unicos.csv, decisoes.jsonl
rs_estado.json versões ativas e artefatos congelados (caminho, SHA-256, data)
rs_log.jsonl histórico de eventos, só acréscimo
Quatro regras de versionamento tornam a estrutura auditável:
- Bruto é intocável. Exportações das bases ficam como vieram, com hash; toda limpeza acontece em arquivo derivado (Seção 5.2).
- Congelar é registrar. Protocolo, critérios de triagem, prompts, codebook e filtros ganham versão (vN) e hash quando aprovados; a mudança seguinte gera vN+1 e um evento de emenda, e as decisões tomadas com a versão anterior continuam associadas a ela (Seção 3.3).
- Prompt é instrumento de medição.
prompts/vN.mdguarda metadados, texto integral e hash; o modelo exato e os parâmetros vão junto; o prompt usado na validação é o mesmo da rodada completa (Seção 12.7). - Contagens não se digitam. O fluxograma sai das tabelas de decisões, com somas conferidas; se não fecha, não é gerado (Seção 5.5).
B.3 Logs de decisão
| Log | Campos mínimos | Onde é detalhado |
|---|---|---|
| Buscas | Identificador, fonte e interface, string (versão), data de execução, filtros aplicados na base, número bruto, arquivo e hash | Seção 4.11 |
| Emendas e desvios | Data, versão anterior e nova, o que mudou, motivo, etapa em que a revisão estava, decisões afetadas | Seção 3.3 |
| Decisões de triagem | id_rs, etapa, rodada, revisor e tipo de ator (humano, subagente, API, script), modelo e hash do prompt, decisão (incluir, excluir, incerto), critério que falhou, justificativa, trecho, lote, horário, correção e motivo |
Seção 5.12 |
| Extração e risco de viés | Valor, trecho literal e página; fórmula de conversão; julgamento por domínio com justificativa; quem codificou e quem conferiu | Seção 7.1; Seção 6.1 |
| Uso de IA | Ferramenta, modelo, versão, datas, parâmetros, papel por etapa, validação com intervalos, elusão, estabilidade e custo | Seção 12.15 |
O log de desvios responde a uma pergunta que o leitor sempre faz: o que foi decidido depois de ver os dados? Uma mudança planejada como contingência no protocolo só precisa ser registrada como acionada; as demais entram como emenda justificada (Akker et al. 2023).
B.4 O pacote aberto
A lista de arquivos do pacote, com o item PRISMA de cada um, está na Seção 11.5. Antes de depositar, confira:
- README descreve cada arquivo, a versão da revisão e a ordem para reproduzir, do arquivo de registros ao relatório.
- Fluxograma reproduzível: as contagens publicadas saem das tabelas de registros e decisões incluídas no pacote.
- Código roda do zero num ambiente limpo, com as versões dos pacotes usados na análise registradas junto dos scripts (Seção 11.5); quem usa programas de apontar e clicar descreve todos os passos (Page, Moher, et al. 2021, item 27).
- Tabela de conversões acompanha os dados extraídos, com fórmula e pressupostos de cada efeito convertido (Seção 7.4).
- Tabela-fonte da caixa de ferramentas e a versão da regra de rótulos permitem refazer cada rótulo (Seção 11.3).
- Prompts, saídas brutas e métricas de validação estão presentes quando houve uso de IA (Seção 12.15).
- Material protegido fica de fora: exportações de bases bibliográficas costumam conter conteúdo licenciado, e as licenças devem ser lidas antes de compartilhar; no lugar dos resumos, publique identificadores e decisões (Page, Moher, et al. 2021, item 27). PDFs dos estudos não entram no pacote.
- Dados pessoais (de autores contatados, de participantes de validação) são removidos ou tratados conforme a LGPD (Brasil 2018).
- Identificador persistente do depósito aparece no artigo, na síntese de evidências e em cada produto derivado (Seção 11.5).
B.5 Licenças e terceiros
Três situações exigem cuidado. A primeira são os dados de terceiros: resumos e registros exportados de bases comerciais seguem a licença da base, não a da revisão (Page, Moher, et al. 2021, item 27). A segunda é o envio de títulos, resumos e PDFs a provedores de IA: os termos de serviço podem permitir o uso para treino, e carregar texto protegido pode constituir reprodução, por isso os acordos de processamento e de confidencialidade são conferidos antes do uso e relatados (Thomas et al. 2026, 29; Holst et al. 2025). A terceira é o material próprio da revisão (codebook, dados extraídos, código, tabela de achados): declare uma licença explícita no README de cada componente. A skill revisao-sistematica adota MIT para o código e CC BY 4.0 para textos, modelos e codebooks (Seção D.5). Para reutilizar materiais didáticos do MAPE/IESP-UERJ ou modelos de terceiros, como o fluxograma PRISMA, siga a licença e a atribuição indicadas pela fonte (PRISMA 2021).