9  Síntese qualitativa, realista, QCA e integração mista sequencial

Esta etapa usa o que foi extraído na decomposição (Seção 7.1) para responder ao que a meta-análise não responde: como a política funciona, para quem, em que contexto, como implementá-la, como os atores a interpretam e quanto custa. Na proposta OQF a análise é mista e sequencial: síntese quantitativa, depois síntese qualitativa dos elementos textuais e, por fim, integração das duas na caixa de ferramentas (Schaefer, Borges, e De Freitas 2025, 24). As decisões são quatro: qual método qualitativo usar para cada pergunta; como escrever mecanismos e moderadores para que possam ser confrontados com os efeitos; quando uma hipótese pode ser testada (subgrupo, meta-regressão, QCA) e quando fica registrada como hipótese; e que regras transformam a evidência nos rótulos da caixa. A síntese de efeitos está na Seção 8.1 e a certeza (GRADE e CERQual), na Seção 10.1.

9.1 Decisões e regras

Qual método para qual pergunta

A escolha do método depende da pergunta e do tipo de material disponível, e não do gosto da equipe. A primeira decisão é o propósito. Sínteses agregativas resumem dados sob conceitos que se supõem seguros e bem definidos; sínteses interpretativas desenvolvem conceitos e teoria e evitam fixá-los cedo (Dixon-Woods et al. 2006, 36). A diferença é de ênfase, mas muda a amostragem: para agregar, a exaustividade importa; para interpretar, a amostragem teórica é defensável, com o risco de perder achados, porque artigos, ao contrário de pessoas, são publicados justamente por dizerem algo novo (Dixon-Woods et al. 2006, 37). Revisões mistas raramente justificam o desenho: numa análise de 459 revisões, só 24% explicavam por que combinar evidências e só 39% descreviam a síntese com referências metodológicas (Hong et al. 2017). A tabela abaixo é o ponto de partida para o protocolo (Seção 3.1).

Pergunta ou situação Método indicado Produto Não use quando Diretriz de relato
Barreiras, facilitadores e visões de beneficiários ou implementadores sobre uma pergunta de política definida Síntese temática (Thomas e Harden 2008, 1, 9) Temas descritivos, temas analíticos e implicações para a intervenção O objetivo é gerar teoria nova a partir de uma literatura interpretativa ampla ENTREQ
Já existe teoria do programa, DAG ou modelo conceitual e o prazo é curto Best-fit framework synthesis (Carroll et al. 2013) Modelo conceitual revisado Não há quadro prévio plausível ENTREQ
Explorar uma literatura interpretativa para produzir novos conceitos Meta-etnografia (France et al. 2019; Daker-White et al. 2015, 3) Interpretações de terceira ordem e linha de argumento Integrar estudos quali e quanti ao mesmo tempo, ou equipe sem experiência qualitativa (Schaefer 2026c, 27) eMERGe
Contar a presença de categorias definidas a priori em muitos documentos Análise de conteúdo dedutiva (Sampaio e Paula 2024, 262) Frequências com exemplos A frequência é lida como importância (Sampaio e Paula 2024, 258) Livro de códigos e confiabilidade
Meta-análise inviável e necessidade de organizar direção e tamanho dos efeitos e explicar diferenças Síntese narrativa com os quatro elementos de Popay (Popay et al. 2006, 11) Teoria de mudança, síntese preliminar, relações, avaliação de robustez “Narrativa” vira sinônimo de resumir estudo por estudo (Hong et al. 2017) PRISMA 2020 e SWiM (Seção 8.1)
Intervenção complexa, cuja eficácia depende de contexto e raciocínio dos atores Síntese realista (Pawson et al. 2005, S1:21–22) Configurações contexto-mecanismo-desfecho (CMOC) e teoria refinada O interesse é o efeito médio de intervenção simples (Wong et al. 2013) RAMESES
Heterogeneidade de efeito entre intervenções complexas com variação no desfecho QCA como síntese (Kahwati et al. 2016, 3, 11; Thomas et al. 2014) Combinações suficientes (e, raramente, necessárias) de condições Menos de 10 estudos com mais de 2-3 condições, ou desfecho sem variação (Kahwati et al. 2016, 11) Padrões de Wagemann e Schneider (Seção 9.6)
Efeito e experiência como dimensões distintas do mesmo fenômeno Revisão mista convergente segregada (Stern et al. 2020) “Análise configurada” que organiza as duas evidências A mesma pergunta é respondível pelos dois tipos de estudo JBI
Uma pergunta que estudos quali e quanti respondem igualmente Revisão mista convergente integrada, com qualitização (Stern et al. 2020) Categorias que misturam dados quali e quanti qualitizados As evidências tratam de aspectos diferentes JBI
Avaliação de política no formato OQF: efeito primeiro, explicação depois Integração sequencial-explicativa (Schaefer, Borges, e De Freitas 2025, 19, 24; Hong et al. 2017) Caixa de ferramentas com rótulos rastreáveis Não houver síntese de efeito que gere enigmas a explicar PRISMA 2020, SWiM, ENTREQ (Seção 11.10)

O quadro do material didático

O material didático sobre análise de dados apresenta uma tradução da tabela de Snilstveit et al. (2012) com pontos fortes e fracos de seis abordagens (Schaefer 2026c, 25–27). Resumida:

Abordagem Ponto forte (segundo o quadro) Ponto fraco (segundo o quadro)
Análise de conteúdo Transparente, replicável, com software de apoio Reducionista; ausência de relato pode ser lida como ausência de evidência
Resumos temáticos Descrição detalhada, acomoda variações de contexto e achados “superficiais” Pode degenerar em contagem de votos
Framework synthesis Quadro transparente e aberto a formuladores e usuários; mais rápida; viável para revisores iniciantes Teoria tentativa imposta cedo pode omitir temas dos dados
Síntese temática Organiza a literatura em temas; admite dados quali e quanti Diversidade de variantes gera incerteza sobre como foi feita
Síntese realista Informa como, por que e onde a intervenção funciona Exige muitos recursos; dúvidas sobre incluir desenhos fracos; orientação metodológica escassa
Meta-etnografia Vai mais longe na produção de teoria Não usada para quali e quanti ao mesmo tempo; exige experiência; problemas de transparência e de avaliação de qualidade
Nota

O quadro ajuda a escolher, mas não diz como executar. Os pontos fracos listados são o que as normas atuais tentam controlar: ENTREQ e eMERGe exigem descrever codificação e derivação de temas (Tong et al. 2012; France et al. 2019), RAMESES exige explicitar como cada inferência sobre contexto, mecanismo e desfecho foi construída (Wong et al. 2013), e CERQual avalia a confiança em cada achado (Lewin et al. 2018).

Regras invioláveis

Importante
  1. Rastreabilidade. Todo enunciado (tema analítico, CMOC, configuração de QCA, rótulo da caixa) aponta para os estudos (id_rs) e os trechos que o sustentam. A síntese temática vale justamente por preservar a ligação explícita entre conclusões e texto dos estudos primários (Thomas e Harden 2008, 1); RAMESES pede que se mostre como cada inferência foi obtida (Wong et al. 2013). Sem suporte rastreável, o enunciado não entra.
  2. Revisões não são estudos de suporte. Revisões sistemáticas e meta-análises servem para bola de neve e comparação, nunca como “estudo” que sustenta mecanismo, moderador ou efeito (Seção 7.1).
  3. Juízo humano. Temas analíticos, CMOCs, calibração de QCA e juízos CERQual são decisões humanas. O estágio analítico depende do juízo e da interpretação dos revisores (Thomas e Harden 2008, 7); o manual da Enap considera que a análise textual automatizada não substitui a análise qualitativa humana e trata os LLMs como complemento da análise de conteúdo (Sampaio e Paula 2024, 275). A validação do uso de IA está na Seção 12.1.
  4. Não significância não é ausência de efeito. Contagem de resultados significativos e não significativos exige cautela (Popay et al. 2006, 18); o rótulo “Nulo” tem regra própria (Seção 9.4).
  5. Testes combinados não rotulam. Fisher, Stouffer e Cooper podem aparecer como análise secundária, mas nunca definem rótulo (Seção 8.1).
  6. Regra fixada antes. As regras de rótulo, a faixa de equivalência (δ), as faixas de magnitude e os moderadores candidatos entram no protocolo com número de versão (Seção 3.1).

Limiares e boas práticas para QCA

Item Regra Fonte
Número de casos N intermediário, cerca de 10 a 50 casos (o manual da Enap fala em 5 a 50) Kahwati et al. (2016, 3); Sampaio e Paula (2024, 424)
Número de condições Moderado; com menos de 10 estudos, no máximo 2 ou 3 condições Wagemann e Schneider (2007, 22); Kahwati et al. (2016, 11)
Variação do desfecho Indispensável; sem estudos com e sem o desfecho, a QCA pouco acrescenta Kahwati et al. (2016, 11); Thomas et al. (2014)
Calibração Âncoras externas e justificadas (pertença plena, ponto de indiferença, não pertença); nada de mediana ou normalização automática Sampaio e Paula (2024, 426–27); Wagemann e Schneider (2007, 22)
Calibração do desfecho numa RS Pela magnitude do efeito (ex.: faixas do log do OR), e não pela significância Thomas et al. (2014); regra da base de direção pelo estimador (Seção 7.1)
Necessidade Analisar antes da suficiência; consistência acima de 0,90 com cobertura alta; desconfiar de condição quase constante (necessidade trivial) Greckhamer et al. (2018); Wagemann e Schneider (2007, 24); Kahwati et al. (2016, 9)
Suficiência Consistência bruta das linhas ≥ 0,80 como referência; 0,75 como piso; justificar a escolha Greckhamer et al. (2018); Thomas et al. (2014); Sampaio e Paula (2024, 431); Wagemann e Schneider (2007, 29)
PRI Alto e próximo da consistência bruta; linhas com PRI abaixo de 0,5 indicam inconsistência séria Greckhamer et al. (2018)
Cobertura Sem ponto de corte; concentrar a interpretação em termos com cobertura acima de 0,5 Sampaio e Paula (2024, 432)
Contradições Resolver antes da minimização (acrescentar ou trocar condições, recodificar, reconceituar o desfecho) Wagemann e Schneider (2007, 23); Thomas et al. (2014)
Soluções Relatar a solução sem suposições simplificadoras (conservadora) e a parcimoniosa; se usar a intermediária, listar as suposições Wagemann e Schneider (2007, 24–25); Kahwati et al. (2016, 8)
Presença e ausência Analisar o desfecho e sua negação separadamente Wagemann e Schneider (2007, 26); Greckhamer et al. (2018); Kahwati et al. (2016, 9)
Robustez Variar âncoras, limiares de consistência e de frequência; relatar faixas de sensibilidade e o núcleo que resiste Oana e Schneider (2021); Greckhamer et al. (2018)

9.2 Métodos de síntese qualitativa

Síntese temática

A síntese temática tem três estágios: codificação livre, linha a linha, dos achados dos estudos; organização dos códigos em temas descritivos; e geração de temas analíticos, que vão além do conteúdo dos estudos primários (Thomas e Harden 2008, 1). No exemplo original, com oito estudos qualitativos, três revisores codificaram cada linha independentemente, toda frase recebeu ao menos um código, surgiram 36 códigos iniciais, 12 temas descritivos e, depois, 6 temas analíticos associados a 10 recomendações para intervenções (Thomas e Harden 2008, 5–7). O uso que interessa à avaliação de políticas está no começo do artigo: a síntese temática gerou hipóteses que foram testadas contra os resultados dos ensaios e que, segundo os autores, não teriam surgido sem ela (Thomas e Harden 2008, 2).

Três decisões operacionais valem para qualquer revisão. “Achado” é todo o texto sob resultados ou achados, inserido verbatim no software (Thomas e Harden 2008, 4), o que corresponde ao trecho com página que a extração já exige (Seção 7.1). As perguntas da revisão ficam de lado na fase descritiva, para não impor um quadro a priori nem produzir síntese vazia, e voltam no estágio analítico, em ciclos individuais e em grupo, até que os temas expliquem todos os temas descritivos (Thomas e Harden 2008, 4, 7). Resumos estruturados preservam o contexto, e a análise de sensibilidade mostrou que os estudos de pior qualidade contribuíram pouco (Thomas e Harden 2008, 8).

O relatório completo dessa revisão mostra a parte que interessa à integração OQF: as implicações derivadas das visões das crianças foram confrontadas numa matriz com as intervenções avaliadas e, onde havia correspondências suficientes, os efeitos foram combinados e comparados à meta-análise geral, com categorias fixadas antes da parte estatística (Thomas et al. 2003, 25). Os autores registram que isso estava previsto e não era “dragagem” de dados (Thomas et al. 2003, 93), e que esse agrupamento foi mais informativo que o feito por variáveis escolhidas a priori (Thomas et al. 2003, 113).

Best-fit framework synthesis

A best-fit framework synthesis começa com um quadro de temas a priori, codifica contra ele os achados dos estudos incluídos e usa análise temática secundária só para o que o quadro não acomoda (Carroll et al. 2013). A busca tem duas vertentes paralelas, uma para modelos e teorias (estratégia BeHEMoTh) e outra para os estudos primários; no exemplo dos autores, cinco artigos com modelos viraram um quadro de conceitos definidos para codificação consistente, 15 estudos foram codificados e seis temas novos surgiram fora do quadro (Carroll et al. 2013). A síntese é testada de três formas: comparação com os modelos de partida (o que faltou e o que foi acrescentado), busca de dissonância e casos negativos, e análise de sensibilidade pela qualidade do relato (excluir os 3 estudos mal relatados não mudaria os temas) (Carroll et al. 2013).

Para uma revisão OQF, este é o método qualitativo mais natural. O quadro a priori já existe: a teoria do programa e o DAG construídos na Seção 2.1, com nós de mecanismo, moderador e incentivos perversos, mais as dimensões da caixa (mecanismo, moderador, implementação, percepção, custo) definidas na proposta (Schaefer, Borges, e De Freitas 2025, 19–20). O limite do método também é claro: só serve quando há quadro prévio plausível (Carroll et al. 2013).

Meta-etnografia

A meta-etnografia de Noblit e Hare tem sete fases: escolher o tema, selecionar estudos, ler os estudos, determinar como se relacionam, traduzi-los uns nos outros, sintetizar as traduções e expressar a síntese (Daker-White et al. 2015, 3). As normas eMERGe organizam 19 critérios de relato pelas sete fases, com detalhe nas fases 3 a 6, e observam que o ENTREQ genérico não cobre essas fases analíticas (France et al. 2019). A tradução pode ser recíproca (conceitos equivalentes entre estudos), refutacional (achados que se contradizem) e culminar numa linha de argumento que integra os conceitos numa interpretação nova (Tong et al. 2012; Schaefer 2026c, 27). O produto almejado são interpretações de terceira ordem: os participantes interpretam a experiência (primeira ordem), os autores interpretam os participantes (segunda ordem) e a revisão interpreta os autores (Schaefer, Borges, e De Freitas 2025, 16).

A revisão de Daker-White et al. (2015) sobre segurança do paciente na atenção primária é o exemplo de referência para meta-etnografia. Os autores incluíram 48 estudos, divididos em 5 subconjuntos temáticos (Daker-White et al. 2015, 1, 6), usaram o artigo mais antigo de cada subconjunto como índice para a tradução (Daker-White et al. 2015, 3–4), extraíram verbatim, com página, as interpretações dos autores e não as falas dos participantes, e reorganizaram cada tabela de conceitos três ou mais vezes até que os estudos “falassem entre si” (Daker-White et al. 2015, 7). O resultado é instrutivo pelo que não aconteceu: o desenvolvimento conceitual foi limitado, e a principal contribuição veio dos grupos de achados refutacionais (Daker-White et al. 2015, 3, 34). Os autores também registram que o fluxograma PRISMA, exigido pela revista, pouco servia a um processo em que a pergunta e os critérios mudam com a tradução (Daker-White et al. 2015, 35).

Dixon-Woods e colegas apontam falta de orientação sobre amostragem e avaliação e pouca praticidade da tradução recíproca, e lembram que sínteses interpretativas feitas por pessoas diferentes não chegam necessariamente às mesmas conclusões (Dixon-Woods et al. 2006, 38). Para uma pergunta de política específica, os temas analíticos da síntese temática costumam ser mais adequados que a terceira ordem (Thomas e Harden 2008, 9).

Análise de conteúdo e síntese narrativa

A análise de conteúdo é uma técnica baseada em procedimentos sistemáticos, validados intersubjetivamente e públicos, para produzir inferências válidas sobre conteúdos verbais, visuais ou escritos (Sampaio e Paula 2024, 258). Ela funciona melhor de forma dedutiva, com livro de códigos; para indução, a análise temática é o caminho (Sampaio e Paula 2024, 262). Parâmetros operacionais do manual da Enap:

Elemento Regra Fonte
Etapas Onze, em três fases: conceituação, desenho (inclui pré-teste e teste de confiabilidade) e análise Sampaio e Paula (2024, 264–65)
Livro de códigos Categorias e códigos, descrição breve, definição completa, quando aplicar, quando não aplicar, exemplos Sampaio e Paula (2024, 266)
Categorias Mutuamente exclusivas, exaustivas e homogêneas Sampaio e Paula (2024, 268)
Confiabilidade Alfa de Krippendorff acima de 0,667 em todas as categorias Sampaio e Paula (2024, 272)
Um só codificador Teste de estabilidade com 2 a 3 semanas de intervalo e índice acima de 0,9 Sampaio e Paula (2024, 272–73)
Congelamento Livro de códigos não muda depois do início da codificação final Sampaio e Paula (2024, 273)

Na RS, a análise de conteúdo serve para descrever, não para explicar: tema frequente não é necessariamente tema importante (Sampaio e Paula 2024, 258). A revisão integrativa de Fonseca et al. (2023) sobre burocracia de nível de rua na pandemia ilustra o uso dedutivo: os textos foram lidos à luz de três categorias analíticas definidas a priori (espaço discricionário, estratégias de enfrentamento e exercício de papéis) (Fonseca et al. 2023, 3), e nove artigos foram analisados de um total de 86 resultados que somavam as nove combinações de descritores, com muitas duplicatas (Fonseca et al. 2023, 5). Faltam o livro de códigos, a dupla codificação e o teste de confiabilidade que tornariam a classificação reprodutível.

A síntese narrativa, no sentido de Popay et al. (2006), não é “resumir estudos”. Ela tem quatro elementos, percorridos de forma iterativa: teoria de como a intervenção funciona, por que e para quem; síntese preliminar; exploração de relações dentro dos estudos e entre eles; e avaliação da robustez do produto (Popay et al. 2006, 11). As ferramentas vão da tabulação e da contagem descritiva de votos a subgrupos, mapas conceituais e tradução recíproca e refutacional (Popay et al. 2006, 17, 19); tabelas e gráficos não são síntese por si (Popay et al. 2006, 16), e subgrupos previstos na teoria do programa são mais plausíveis que achados pós hoc (Popay et al. 2006, 14–15). A revisão sobre o Bolsa Família de Santos et al. (2019) é um exemplo brasileiro de síntese tabular, com resultados agrupados em três conjuntos de indicadores educacionais (Santos et al. 2019, 2236).

Síntese realista

A revisão realista parte de uma causalidade generativa: para inferir que um programa produz um desfecho (O), é preciso entender o mecanismo (M) que liga os eventos e o contexto (C) em que a relação ocorre; a pergunta passa a ser o que funciona, para quem e em que circunstâncias (Pawson et al. 2005, S1:21–22). O processo tem cinco passos: esclarecer o escopo e articular as teorias; buscar evidências; avaliar e extrair; sintetizar; disseminar e avaliar (Pawson et al. 2005, S1:24). As diferenças operacionais em relação a uma RS de efetividade são grandes:

Etapa Na revisão realista Fonte
Teoria inicial Mapa das teorias do programa, incluindo teorias rivais sobre como ele pode falhar (resistência às medidas, enquadramento da mídia, manipulação de indicadores) Pawson et al. (2005, S1:26–27)
Busca Quatro componentes (exploratória, focalização nas teorias, busca empírica para testá-las, busca final), com amostragem intencional; numa revisão realista, 52% dos estudos vieram de bola de neve e 35% de bases Pawson et al. (2005, S1:28–29)
Avaliação Relevância (o trecho testa a teoria?) e rigor (a inferência se sustenta?), julgados por trecho de dado; o valor do estudo se estabelece na síntese Pawson et al. (2005, S1:30); Wong et al. (2013)
Extração Anotação e formulários sob medida, com trilha do uso e do não uso de cada fonte Pawson et al. (2005, S1:30–31)
Síntese Refinar a teoria; unidade de análise é a teoria, não o estudo; evidência contraditória é usada para entender a influência do contexto Pawson et al. (2005, S1:24, S1:31)
Recomendações Contextuais, no formato “em circunstâncias como A, tente B” Pawson et al. (2005, S1:24)

Uma CMOC bem escrita separa o que é contexto, o que é mecanismo e o que é desfecho; o mecanismo envolve a interação entre recursos oferecidos pelo programa e o raciocínio humano, e explicações formuladas como relações lineares entre variáveis não são realistas (Wong et al. 2013). A fórmula de Dalkin et al. (2015) deixa isso operacional: M(recursos) + C → M(raciocínio) = O (Dalkin et al. 2015, 4). A CMOC nasce por retrodução, que é a identificação de forças causais ocultas por trás dos padrões observados, combinando indução, dedução e intuição informada (The RAMESES II Project 2017, 1–2).

Numa revisão OQF, a teoria inicial não precisa ser inventada: o DAG da Seção 2.1, com mecanismos e incentivos perversos por elo, é a primeira versão do mapa de teorias, e os incentivos perversos correspondem às teorias rivais de Pawson. A lógica realista entra na caixa pela forma de escrever mecanismos e moderadores (como CMOCs com estudos de suporte), mesmo quando a revisão não é uma síntese realista completa.

Aviso

Tensão com o protocolo. Pawson e colegas desaconselham protocolos pré-publicados com pergunta e propósito fixados (Pawson et al. 2005, S1:25). RAMESES resolve a tensão pelo relato: mudanças em relação ao planejado são descritas e justificadas (item 5) e a busca iterativa é documentada (item 8) (Wong et al. 2013). Na prática, registra-se o protocolo com a parte iterativa prevista e cada ciclo de teoria vira emenda datada (Seção 3.1).

QCA como síntese

A QCA trata cada estudo como um caso, representado como uma configuração de condições, e busca combinações necessárias ou suficientes para o desfecho; os resultados são expressos em álgebra booleana e não oferecem estimativas de precisão nem testes de hipótese (Kahwati et al. 2016, 3). As premissas são equifinalidade, causação conjuntural e assimetria (Sampaio e Paula 2024, 421). No material didático sobre análise de dados, estudos que usam QCA aparecem como tipo b1 (qualitativo explanatório) (Schaefer 2026c, 48); aqui o assunto é outro: usar a QCA como método de síntese sobre os estudos incluídos.

Os seis estágios de Thomas et al. (2014) são: construir a tabela de dados (linhas = estudos, colunas = condições e desfecho), construir a tabela verdade, resolver contradições, minimizar, examinar os remanescentes lógicos e interpretar. O fluxo de Kahwati et al. (2016, 4) acrescenta, antes, a formulação de uma pergunta configuracional e a especificação dos conjuntos.

Duas aplicações mostram as escolhas que importam:

  • Kahwati et al. (60 estudos de adesão a medicamentos) reduziram 12 técnicas de mudança de comportamento para 9 e ainda ficaram abaixo da razão condições/casos recomendada (Kahwati et al. 2016, 5–6). Calibraram o desfecho como “melhora” quando ao menos uma medida foi estatisticamente significativa, precisaram voltar às publicações originais de quase todos os estudos porque a extração não bastava para calibrar (Kahwati et al. 2016, 5) e chegaram a 7 e 4 configurações suficientes, com cobertura da solução de 76% e 56% (Kahwati et al. 2016, 8–9).
  • Thomas et al. (12 estudos de aleitamento, quase todos efetivos) usaram como desfecho o conjunto das intervenções “altamente efetivas”, calibrado pelo log do OR: acima de 0,7, pertença plena; de 0,4 a 0,7, mais dentro; de 0 a 0,4, mais fora; zero ou menos, fora. Como as condições de partida não discriminavam, voltaram aos estudos e chegaram a “alta intensidade ou alta qualidade” (cobertura 0,714; consistência 0,833), advertindo que esse diálogo pós hoc está mais aberto a viés que categorias fixadas a priori (Thomas et al. 2014).

A lição combinada: calibrar o desfecho pela magnitude, e não pela significância; manter poucas condições; fixar antes da extração uma rubrica de calibração com registro da justificativa de cada atribuição, como numa avaliação de risco de viés, deixando espaço registrado para revisão (Kahwati et al. 2016, 10–11). Há também precedente do uso que o OQF precisa: segundo Kahwati et al. (2016, 11), Candy e colegas aplicaram QCA a uma revisão Cochrane concluída para confrontar os componentes que pacientes consideravam importantes com os componentes presentes nas intervenções efetivas. Para revisões mistas, El Sherif et al. (2024) oferecem um guia passo a passo, voltado a iniciantes, de QCA como método de integração de evidência qualitativa e quantitativa, com recomendações de relato. No Brasil, Sampaio e Paula (2024, 438) relatam a aplicação de QCA por Pires e Gomide a oito planos, programas ou projetos governamentais brasileiros desenvolvidos entre 2003 e 2013. A QCA computacional fica fora da versão 1 da skill; a versão 1 reconhece o caso, orienta pelo capítulo e declara o limite.

9.3 Métodos mistos e integração sequencial

Desenhos

Small (2011) separa estudos que misturam coleta de dados de estudos que misturam análise (Small 2011, 59–60) e motivações de confirmação e de complementaridade (Small 2011, 63–65); como tipos de dados diferentes produzem conhecimentos diferentes, a “confirmação” pode ser só a revelação de dois aspectos do fenômeno (Small 2011, 66). Desenhos sequenciais permitem entender os mecanismos de associações recém-descobertas, e os melhores são iterativos: no exemplo de Pearce, casos anômalos da análise estatística orientaram entrevistas, que levaram a nova especificação dos modelos (Small 2011, 67–68). Quantificar texto qualitativo, por outro lado, tem grande potencial de aplicação errada (Small 2011, 76).

Esses conceitos vêm da pesquisa primária. Para revisões, Hong et al. (2017) classificaram 459 revisões mistas em desenhos convergentes (baseados em dados, em resultados ou em resultados paralelos) e sequenciais; os sequenciais eram menos de 5%, nenhum foi classificado como sequencial explicativo, e os autores indicam o desenho sequencial quando a evidência qualitativa serve para interpretar ou explicar achados quantitativos. O JBI trabalha só com desenhos convergentes, justamente pelo pouco uso do sequencial: o integrado transforma dados, preferindo qualitizar resultados quantitativos, quando a mesma pergunta é respondível pelos dois tipos de estudo; o segregado faz sínteses separadas e depois as organiza numa linha de argumento, quando efeito e experiência são dimensões diferentes do fenômeno (Stern et al. 2020). As cinco perguntas-guia do desenho segregado servem diretamente à integração OQF: os achados das duas sínteses se apoiam ou se contradizem? A evidência qualitativa explica por que a intervenção funciona ou não? Ela ajuda a explicar diferenças de direção e tamanho do efeito entre estudos? Que aspectos da evidência quantitativa não foram explorados nos estudos qualitativos? Que aspectos da evidência qualitativa não foram testados nos quantitativos? (Stern et al. 2020). Numa checagem de 17 revisões que diziam seguir o JBI, 8 não seguiam; as falhas mais comuns foram escolher a abordagem errada para a pergunta, excluir estudos mistos primários, não descrever a transformação de dados e não misturar de fato os componentes (Lizarondo et al. 2022).

O desenho OQF é sequencial-explicativo e dá precedência à evidência quantitativa (Schaefer, Borges, e De Freitas 2025, 19). Dixon-Woods et al. (2006, 32) chamam atenção para o risco desse arranjo: tratar a pesquisa qualitativa como coadjuvante subordinada, em vez de reconhecer que ela contribui de forma independente. A integração corrigida abaixo reduz esse risco ao usar a síntese qualitativa como fonte de hipóteses e de enunciados próprios (percepção, implementação), e não só como ilustração do efeito.

Integração sequencial-explicativa corrigida

  1. A síntese quantitativa define as células e os enigmas. Cada célula é uma família de intervenção cruzada com um construto de desfecho. A síntese de efeito (Seção 8.1) entrega estimativa, IC, heterogeneidade e intervalo de predição; heterogeneidade alta, estudos discrepantes e direções opostas viram a lista de enigmas a explicar, como fez Pearce com os casos anômalos (Small 2011, 67–68).
  2. A síntese qualitativa gera hipóteses e enunciados. A best-fit framework synthesis com o quadro do DAG organiza mecanismos, moderadores, barreiras de implementação, percepções e custos; os temas analíticos e as CMOCs viram hipóteses explicativas para os enigmas e enunciados próprios da caixa. Para que achados de estudos quantitativos, qualitativos e mistos possam ser comparados, cada um é reescrito como enunciado portátil ancorado em amostra, fonte de informação, tempo, ponto de comparação, magnitude e significância, e na forma como o estudo definiu o fenômeno (Sandelowski et al. 2013).
  3. Testar quando o número de estudos permite. Uma hipótese vira análise de subgrupo, meta-regressão ou QCA só se houver estudos suficientes nos limiares da Seção 8.1 e da tabela de QCA acima; a codificação da variável moderadora é definida a partir da síntese qualitativa antes de olhar o efeito por subgrupo, como na matriz de Thomas et al. (2003, 25).
  4. Sem estudos suficientes, a hipótese fica registrada como hipótese, com o grau de confiança CERQual do achado que a originou (Seção 10.1) e a indicação da lacuna de pesquisa.
  5. O joint display fecha a integração e registra, para cada hipótese, a evidência qualitativa, o teste quantitativo possível, o resultado e a consequência para o rótulo.

Joint display

Em pesquisa mista, um joint display integra os dados trazendo-os juntos por meio visual, para produzir inferências que nenhum dos resultados separados daria; o ajuste (fit) entre achados pode ser de confirmação, expansão ou discordância (Fetters et al. 2013). A matriz de Thomas et al. (2003, 25, 91), com implicações das visões das crianças numa coluna e intervenções avaliadas em outra, é um antecedente em revisão. O modelo mínimo para a skill:

Enigma ou hipótese (origem) Evidência qualitativa (estudos; confiança CERQual) Evidência quantitativa (estudos; k por nível) Teste feito ou motivo de não testar Ajuste Consequência para a caixa
Uma linha por hipótese, com id_rs Enunciado e IDs Estimativas por subgrupo, se houver Subgrupo, meta-regressão, QCA ou “k insuficiente” Confirmação, expansão ou discordância Rótulo afetado e texto de ressalva

9.4 Caixa de ferramentas: regras de rótulo

A proposta OQF define a caixa com linhas para tipo de intervenção, escala e força do efeito, mecanismo, moderador, implementação, percepção e custo, mais uma coluna de tipo de evidência, mas não define regras para preenchê-la: a escala é “positivo, misto ou negativo” e a força é estabelecida “a partir da evidência disponível” (Schaefer, Borges, e De Freitas 2025, 19–20). No material didático sobre tipos de revisão, a escala vira “positivo, nulo, negativo” e a força vira “tamanho do coeficiente, significância” (Schaefer 2026b, 25, 40). A especificação desta base (Seção D.4) substitui essas definições abertas por regras explícitas, inspiradas em dois modelos: o EMMIE, que pede a revisões de prevenção ao crime evidência sobre efeito, mecanismo, moderador, implementação e custo econômico, separando o que a evidência diz da qualidade dessa evidência (Johnson et al. 2015, 463), e o Teaching and Learning Toolkit, que resume cada abordagem por impacto médio, força da evidência e custo (Education Endowment Foundation 2021, 4).

Nota

Proposta OQF e base. As regras abaixo são a especificação metodológica desta base (a camada que corrige a proposta OQF) e valem até que o protocolo da revisão as substitua por versão própria. Os pontos de corte que não vêm de norma externa (por exemplo, ≥ 5 estudos e ≥ 70% na regra sem meta-análise, a pontuação de implementação e as definições operacionais de cada critério propostas neste capítulo) são convenções da base: devem ser declarados no protocolo, com regra_versao, e podem ser alterados por emenda justificada.

A célula e seus campos

A unidade da caixa é a célula: família de intervenção × construto de desfecho. Como randomizados e não randomizados nunca são agregados juntos (Seção 8.1), cada célula tem um corpo de evidência por classe de desenho, cada um com seu rótulo e sua certeza, e uma linha de painel que os resume (abaixo). Cada célula guarda a versão da regra aplicada, os estudos (id_rs) e estimativas usados, a certeza e a assinatura de quem aprovou. Construtos diferentes (desempenho em teste padronizado e percepção de desempenho, por exemplo) ou populações que o protocolo separa (educação básica e ensino superior) são células diferentes.

Efeito

Rótulo Regra com meta-análise Regra sem meta-análise
Positivo Meta-análise com k ≥ 3, estimativa na direção benéfica, IC que exclui zero e certeza GRADE ao menos baixa Teste de sinal com p < 0,05, pelo menos 5 estudos, pelo menos 70% na direção benéfica, e não só estudos de risco de viés alto
Negativo Idem, na direção danosa; inclui efeitos perversos previstos no DAG Idem, na direção danosa
Nulo IC inteiro dentro de ±δ, com δ (menor efeito de interesse) fixado a priori, e certeza ao menos moderada Não se aplica sem estimativa com IC
Misto ou depende do contexto Intervalo de predição cobre benefício e dano relevantes (além de ±δ) e um moderador pré-especificado ou um achado qualitativo explica a variação. Na versão caixa-3: k ≥ 5, porque τ² e intervalo de predição só se interpretam a partir daí (Seção 8.1); δ fixado a priori, porque “relevante” pressupõe δ; e o achado explicativo com enunciado e confiança própria ao menos baixa (CERQual, ou ICEMAN para moderador testado; Seção 10.1) Não definido na especificação; proposta deste capítulo: direções opostas entre estudos que não sejam só de risco alto, com a mesma exigência de explicação
Inconclusivo Todos os demais casos Todos os demais casos

Direção pelo estimador pontual e significância separada estão na Seção 7.1; o mínimo de três estudos para agregar, o teste de sinal, o intervalo de predição e δ, na Seção 8.1; GRADE, na Seção 10.1. As quatro categorias de certeza do GRADE (alta, moderada, baixa, muito baixa) se aplicam ao corpo de evidência, não a estudos isolados (Balshem et al. 2011).

Aviso

Ordem de aplicação. A especificação não fixa precedência entre “Misto” e “Positivo”/“Negativo” quando as duas condições valem ao mesmo tempo. Esta base adota a seguinte ordem, que o protocolo declara e que a skill aplica na versão de regra caixa-3: (1) célula sem juízo de certeza GRADE fica “Pendente”, porque certeza não se inventa; (2) certeza muito baixa leva a “Inconclusivo”, porque nenhum rótulo, nem mesmo “Misto”, pode ser mais forte que a certeza; (3) se o intervalo de predição cobre benefício e dano relevantes e a célula alega uma explicação, “Misto” quando os três requisitos valem (k ≥ 5, δ declarado e achado explicativo com confiança ao menos baixa) e “Inconclusivo” quando falta algum, com a lista do que falta, porque uma heterogeneidade alegada e não sustentada impede ler a média como efeito típico; (4) “Positivo” ou “Negativo”; (5) “Nulo”; (6) “Inconclusivo” nos demais casos. Sem explicação alegada, a célula segue direto do passo 2 para o 4. A versão anterior, caixa-2, aceitava “Misto” com k = 3 ou 4 e sem δ; projetos que a declararam no protocolo precisam de emenda para trocar de versão. Avaliar “Misto” antes da certeza, por entender que heterogeneidade explicada descreve melhor o efeito num contexto concreto, é uma alternativa defensável, mas é outra versão da regra, a declarar no protocolo como desvio. A decisão final é humana e fica registrada no portão G8.

Linha de painel: um rótulo por família × construto

Painel e policy brief mostram uma linha por família × construto (Seção 11.3), mas a caixa tem um corpo por classe de desenho, e os corpos podem discordar: ensaios randomizados “Positivo” com certeza moderada e não randomizados “Inconclusivo” com certeza baixa, por exemplo. A especificação define a célula como família × construto e não diz como chegar a uma linha única; esta base fixa a regra abaixo, que a skill aplica na versão caixa-3 e que o protocolo declara como convenção:

Situação dos corpos de evidência Rótulo do painel
Algum corpo ainda pendente Pendente
Um só corpo O rótulo dele
Corpos com o mesmo rótulo Esse rótulo, com a maior certeza
Rótulos diferentes O rótulo do corpo de maior certeza, com o outro anotado na justificativa e na ficha
Rótulos diferentes com a mesma certeza Inconclusivo, por heterogeneidade entre desenhos

A regra segue a lógica do GRADE de que a conclusão acompanha a evidência de maior certeza, avaliada por corpo e não por estudo (Balshem et al. 2011); quando nenhum corpo prevalece, a divergência entre desenhos é ela mesma um achado, e o painel não escolhe um lado. Os corpos por desenho continuam no relatório, e a linha de painel nunca substitui a leitura deles.

Escala e força

Linha Regra Observação
Escala Faixas de magnitude do campo, declaradas no protocolo Faixas genéricas enganam: g = 0,22 é “pequeno” por convenções gerais, mas cai na faixa de 0,19 a 0,26, equivalente a 3 meses de progresso e descrita como impacto moderado na tabela do Toolkit para desempenho escolar (Education Endowment Foundation 2021, 6)
Força Mapeada do GRADE da célula: alta = forte; moderada = moderada; baixa = fraca; muito baixa = insuficiente A força descreve a confiança na estimativa, não o tamanho do efeito (Balshem et al. 2011)

Implementação

Cada critério presente vale 1 ponto; a soma dá o rótulo, acompanhado da confiança CERQual e de uma justificativa com os id_rs que sustentam cada ponto.

Critério (1 ponto cada) Evidência exigida e regra operacional
Mais de 2 componentes Componentes descritos nas intervenções avaliadas pelos estudos; recomendações dos autores da revisão não contam
Mais de um nível de governo ou múltiplos atores Desenho da política e relatos de implementação
Nova infraestrutura ou pessoal Aquisição, construção ou contratação exigida pela política e relatada nos estudos; recursos que as unidades já têm não contam, na mesma lógica com que o Toolkit exclui do custo o que as escolas já possuem (Education Endowment Foundation 2021, 9)
Barreiras de fidelidade ou adoção em pelo menos 2 estudos Achados qualitativos ou de processo em estudos primários distintos; revisões não contam
Longo tempo até o efeito Estudos com seguimento; “não reportado” vale 0 e é declarado
Rótulo 0 a 1 pontos: Simples; 2 a 3: Moderada; 4 ou mais: Complexa

Mecanismo, moderador, percepção e custo

Estas linhas não recebem rótulo categórico. Recebem enunciados de achado, cada um com os estudos de suporte e a confiança CERQual, que avalia limitações metodológicas, coerência, adequação dos dados e relevância, e se expressa como alta, moderada, baixa ou muito baixa (Lewin et al. 2018).

Linha Forma do enunciado Regra adicional
Mecanismo CMOC: em contexto C, o recurso oferecido pela política ativa o raciocínio M, que produz O Separar explicitamente C, M e O (Wong et al. 2013); enunciado sem estudo primário de suporte não entra
Moderador “O efeito é maior/menor quando…”, com a variável moderadora definida Se vier de relatos, CERQual; se não testado, marcar “hipótese”. Se testado por subgrupo ou meta-regressão na própria síntese, cada nível vira linha de efeito com GRADE (Seção 10.1); esta é uma leitura da especificação, que prevê CERQual para moderadores sem distinguir o caso testado
Percepção Um enunciado por ator (beneficiários, implementadores, gestores, famílias) A proposta OQF trata percepção como dimensão qualitativa (Schaefer, Borges, e De Freitas 2025, 23)
Custo Custo unitário ou custo-efetividade, com ano e moeda Sem quantificação, escrever “custo monetário não reportado” e registrar custos não monetários como enunciado com CERQual

CERQual tem pouca experiência acumulada em sínteses mistas, em produtos interpretativos (como modelos lógicos) e fora da saúde (Lewin et al. 2018), e o JBI não recomenda GRADE nem ConQual para o produto integrado de uma revisão mista (Stern et al. 2020). Por isso a base aplica GRADE às células de efeito e CERQual aos achados qualitativos antes da integração, e expressa a certeza de CMOCs e de soluções de QCA em texto, sem pseudo-GRADE.

Relação com EMMIE e Toolkit

Linha da caixa (base) EMMIE Teaching and Learning Toolkit
Efeito e escala Direção, tamanho e efeitos não intencionais, com a confiança na estimativa (Johnson et al. 2015, 463) Impacto em meses de progresso, convertido de faixas de tamanho de efeito (Education Endowment Foundation 2021, 6)
Força Escala de qualidade 0-4 pelo número de elementos de validade atendidos pela revisão (Johnson et al. 2015, 465) Até cinco cadeados conforme o número de estudos (o nível máximo exige 70 ou mais), com perda por poucos estudos recentes, muitos não randomizados, condições distantes da prática escolar, avaliações não independentes e variação não explicada; com menos de 10 estudos, zero cadeado e impacto não comunicado (Education Endowment Foundation 2021, 7–8)
Mecanismo, moderador, implementação Escalas 0-4 próprias (ex.: mecanismo vai de “caixa-preta” a teste e refinamento de teoria) (Johnson et al. 2015, 465) Sem linhas próprias; a variação por idade ou disciplina aparece no texto de cada abordagem (Education Endowment Foundation 2021, 5)
Custo Escala 0-4, de nenhuma menção a custos marginais ou de oportunidade por quem os suporta (Johnson et al. 2015, 466) Cinco faixas por turma de 25 alunos ou por aluno, contando só recursos novos (Education Endowment Foundation 2021, 9)
Percepção Sem dimensão própria Sem linha própria

As escalas 0-4 do EMMIE avaliam quão bem a revisão tratou cada dimensão, e não o que a evidência diz (Johnson et al. 2015, 463, 465); por isso a caixa traz, em cada linha, enunciado e certeza. A força vem do GRADE, e não da contagem de estudos do Toolkit, porque o GRADE julga o corpo de evidência da célula por domínios (Balshem et al. 2011). Do Toolkit ficam duas ideias: não comunicar magnitude com poucos estudos e perder confiança com variação não explicada. A tabela de meses é específica de desempenho escolar e só vale como faixa de escala se o protocolo justificar a transposição.

Quem decide o quê

Tarefa O que LLM ou subagente pode fazer O que é decisão humana
Codificação linha a linha Propor códigos livres com trecho verbatim e página Auditar amostra, fundir códigos, fixar temas descritivos
Temas analíticos Listar candidatos a partir dos temas descritivos Formular, revisar em ciclos e aprovar (Thomas e Harden 2008, 7)
CMOCs Extrair trechos candidatos a contexto, mecanismo e desfecho Retrodução, formulação e refinamento da CMOC (The RAMESES II Project 2017, 1–2)
Calibração de QCA Levantar distribuições e âncoras candidatas Fixar âncoras e rubrica, registrar justificativas (Kahwati et al. 2016, 10)
CERQual Organizar a evidência por componente Julgar cada componente e a confiança final
Rótulos da caixa Aplicar a regra versionada e montar a tabela rastreável Revisar exceções e assinar o portão G8

9.5 Passo a passo

  1. No protocolo (Seção 3.1): declarar o desenho (sequencial-explicativo), o método qualitativo por pergunta (tabela da Seção 9.1), as células, as faixas de escala do campo, δ, as regras de rótulo com versão e ordem de aplicação, os moderadores candidatos derivados do DAG e o plano de CERQual e GRADE.
  2. Preparar o quadro a priori: converter o DAG e as dimensões da caixa em conceitos definidos, com definição e regra de aplicação, como Carroll et al. fizeram com os modelos de partida (Carroll et al. 2013). Se houver análise de conteúdo, montar o livro de códigos com os seis componentes (Sampaio e Paula 2024, 266).
  3. Separar suporte primário de revisões: marcar RS e meta-análises como fontes de bola de neve, fora das células.
  4. Síntese de efeito por célula (Seção 8.1) e lista de enigmas: heterogeneidade, intervalo de predição largo, estudos discrepantes, direções opostas.
  5. Codificar os achados qualitativos contra o quadro: códigos livres para o que não couber; dupla codificação de amostra, com concordância conforme a Seção 7.1; enunciados portáteis com amostra, fonte, tempo, comparação e magnitude (Sandelowski et al. 2013).
  6. Construir temas descritivos e, por decisão humana, temas analíticos e CMOCs; procurar casos negativos e achados refutacionais, que podem render mais que a terceira ordem (Daker-White et al. 2015, 34; Carroll et al. 2013).
  7. Testar a síntese qualitativa: comparar com o quadro de partida, verificar dissonâncias e fazer análise de sensibilidade por qualidade (Carroll et al. 2013; Thomas e Harden 2008, 8).
  8. Avaliar confiança de cada achado com CERQual e certeza de cada célula com GRADE (Seção 10.1).
  9. Testar hipóteses quando possível: subgrupo ou meta-regressão nos limiares da Seção 8.1; QCA quando houver casos e variação suficientes, com calibração do desfecho por magnitude e análise de robustez (Thomas et al. 2014; Oana e Schneider 2021). Caso contrário, registrar como hipótese.
  10. Montar o joint display, classificar o ajuste (confirmação, expansão, discordância) e responder às cinco perguntas-guia (Fetters et al. 2013; Stern et al. 2020).
  11. Aplicar as regras da caixa, gerar a tabela com id_rs, estimativas, certeza e versão da regra, e submeter ao portão G8.
  12. Levar à prática e relatar: da evidência à prática com transferibilidade ao Brasil na Seção 10.1; texto e checklists na Seção 11.10.

9.6 O que as diretrizes exigem

Diretriz Itens pertinentes O que exige nesta etapa
PRISMA 2020 13a-13f; 20a-20d Critérios para montar cada síntese, preparação dos dados, tabulação, método de síntese com justificativa, exploração de heterogeneidade e sensibilidade; resultados de cada síntese e das investigações de heterogeneidade (Page et al. 2021)
ENTREQ 21 itens em cinco domínios; em especial 2, 3 e 14-21 Metodologia e justificativa; busca planejada ou iterativa; o que foi extraído; software, quem e como codificou; comparação entre estudos; temas indutivos ou dedutivos; citações identificadas como falas de participantes ou interpretações de autores; produto além do resumo (Tong et al. 2012)
eMERGe 19 critérios pelas sete fases Justificar a meta-etnografia; descrever leitura e extração, como os estudos foram relacionados, como foram feitas as traduções recíproca e refutacional, como se chegou aos conceitos sintetizados e a reflexividade (France et al. 2019)
RAMESES (sínteses realistas) 19 itens; em especial 5, 7-11 e 14 Mudanças no processo; escopo exploratório; busca iterativa; relevância e rigor; extração; análise com C, M e O explicitados; achados focados em construção e teste de teoria (Wong et al. 2013)
JBI (revisões mistas) Guia metodológico, sem padrão de relato consolidado Justificar o desenho, escolher integrado ou segregado conforme a pergunta, incluir estudos mistos primários, mostrar dados originais e transformados, responder às perguntas-guia (Stern et al. 2020; Lizarondo et al. 2022)
GRADE-CERQual Quatro componentes e tabela de achados Confiança por achado, com justificativa (Lewin et al. 2018)
Padrões de QCA Critérios m, n, o, q, r, s, t, u, y Condições moderadas, calibração explícita, contradições resolvidas, necessidade separada, soluções com e sem suposições, remanescentes transparentes, tratamento transparente de linhas inconsistentes, desfecho e negação analisados em separado, consistência e cobertura interpretadas (Wagemann e Schneider 2007, 22–29); robustez relatada (Greckhamer et al. 2018)

9.7 Exemplo trabalhado

O que foi feito

A revisão sobre proibição de celulares incluiu 21 trabalhos, 8 com desenho quantitativo e inferência causal e 13 qualitativos ou quantitativos descritivos, com análise mista e sequencial (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 99). Sobre os estudos qualitativos, o artigo diz apenas que foram identificadas variáveis ligadas a mecanismos, contextos de implementação e percepções, sem nomear método de síntese (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 104). A síntese de efeito combinou os 8 estudos (3 experimentais, 4 de diferenças em diferenças e 1 meta-análise) e chegou a g = 0,22, apoiada nos testes de Fisher e de Cooper (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 104); o gráfico de floresta traz o IC de 0,02 a 0,42, χ²₇ = 29,73 e I² = 76,5% (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 105). A caixa final registrou (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 108):

Linha Caixa publicada
Escala do efeito Efeito positivo
Força do efeito Efeito fraco
Mecanismo Redução da distração e criação de ambiente com maior socialização
Moderador Mais efetiva para estudantes e escolas em maior vulnerabilidade socioeconômica
Implementação Proibição durante as aulas e celular retirado na entrada da escola
Percepção Professores mais favoráveis; alunos resistem a proibições totais
Custo Custo baixo

A proposta metodológica reconhece a dificuldade: mecanismos e moderadores só puderam ser identificados em cinco trabalhos (três quantitativos, um misto e uma revisão) (Schaefer, Borges, e De Freitas 2025, 31). A mesma caixa aparece sem a linha de percepção na proposta e nos slides (Schaefer, Borges, e De Freitas 2025, 37; Schaefer 2026c, 44), o que mostra por que cada versão da caixa precisa de número e data.

Reconstrução com as regras

Células. O artigo combinou educação básica e ensino superior (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 105) e lista entre as limitações variação no tipo de banimento, no público, no foco e no tipo de avaliação (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 109). Pela regra da célula, os dois níveis de ensino são células separadas, e a meta-análise incluída como estudo sai do cálculo (Seção 7.1). Para mostrar a lógica, uso abaixo o conjunto publicado.

Efeito. O IC exclui zero, o que satisfaz a primeira condição de “Positivo”. Mas I² = 76,5% (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 105), e o intervalo de predição recalculado na Seção 8.5 vai de −0,28 a 0,71. Com um δ ilustrativo de 0,10, o intervalo cobre benefício e dano relevantes, e há moderador e achados qualitativos candidatos a explicar a variação. Aplicando a ordem recomendada: se o GRADE da célula ficar em “muito baixa”, o rótulo é Inconclusivo; se ficar em “baixa” ou acima, o rótulo é Misto ou depende do contexto, e não “Positivo”. A avaliação da Seção 10.7 chega a certeza muito baixa, o que leva a “Inconclusivo”. Em nenhum dos cenários os testes de Fisher e Cooper entram na decisão. O Toolkit chegaria a conclusão parecida por outro caminho: com oito estudos, abaixo de dez, não haveria cadeado nem comunicação de meses de progresso (Education Endowment Foundation 2021, 7).

Escala e força. O g de 0,22 foi lido como “fraco” (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 104–5) e colocado na linha de força. Pela base, magnitude vai para a escala, com a faixa do campo fixada no protocolo (na tabela do Toolkit, 0,19 a 0,26 equivale a 3 meses de progresso, impacto moderado (Education Endowment Foundation 2021, 6)), e a força vem do GRADE. Inconsistência e indireção (mistura de níveis de ensino e de medidas) são motivos visíveis de rebaixamento (Balshem et al. 2011); a avaliação completa fica para a Seção 10.7.

Mecanismo. O enunciado publicado cita quatro fontes para a redução da distração (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 105–6). Duas são revisões (Böttger e Zierer, 2024; Campbell et al., 2024) e saem do suporte; “Amin et al., 2022” não consta das referências. Sobra um estudo primário (Porter et al., 2016), com grupos focais, survey e entrevistas sobre celulares e educação na África Subsaariana (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 98–99, 112), cuja relevância para salas de aula brasileiras precisa ser julgada no CERQual. Reescrito como CMOC: em salas em que o aparelho está disponível e os alunos têm menor autocontrole (C), a retirada do aparelho (recurso) reduz a tentação de interrupção e sustenta a atenção (raciocínio), elevando o desempenho (O); a explicação por autocontrole aparece associada a Beland e Murphy (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 106). Com um único estudo primário de suporte, a adequação dos dados preocupa e a confiança CERQual tende a baixa ou muito baixa (juízo humano). A parte “maior socialização” não tem estudo de suporte nos resultados.

Moderador. A afirmação de que os efeitos são mais fortes para alunos vulneráveis e de baixo desempenho vem de três estudos quantitativos (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 106), mas não houve análise de subgrupo na síntese. Pela regra, o enunciado entra como hipótese, com os estudos listados, e segue para o joint display.

Implementação. A pontuação, com a evidência do artigo:

Critério Ponto Evidência
Mais de 2 componentes 0 até codificar Exceções, critérios de punição e confisco aparecem como recomendação dos autores (“é necessário”) e não como descrição das intervenções avaliadas (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 107); é preciso codificar os estudos
Múltiplos níveis ou atores 1 Lei federal, decreto e redes; direção, coordenação, professores, pais e alunos (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 108–9)
Nova infraestrutura ou pessoal 1 Aquisição de estruturas para guarda dos celulares, citada como principal custo (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 107)
Barreiras de fidelidade em pelo menos 2 estudos 1 Docentes flexibilizam a regra (Grigic Magnusson et al., 2023); falta de clareza gera aplicação desigual e resistência (Gao et al.) (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 107). Smale et al. (2021), também citado, é revisão pela classificação do próprio artigo (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 99) e não conta
Longo tempo até o efeito 0 Não reportado
Total 3, ou 4 se os componentes forem confirmados Moderada (3) ou Complexa (4)

O enunciado publicado (“celular retirado na entrada da escola”) não tem estudo de suporte na seção de resultados, e o texto cita “Gao et al., 2014”, enquanto a referência listada é de 2017 (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 107, 111). O primeiro caso falha na regra de rastreabilidade; o segundo exige conferir a referência antes de contar o estudo.

Percepção. Um enunciado por ator: professores (Grigic Magnusson et al., 2023; Campbell et al., 2024 sai por ser revisão), alunos (Gath et al., 2024) e pais. A frase sobre pais não cita estudo (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 106–7) e não entra.

Custo. “Custo baixo” não traz quantificação. Pela regra: “custo monetário por aluno não reportado”; custos não monetários, como tensões entre alunos, professores e gestão (Wikström et al., 2024) (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 107), viram enunciado com CERQual.

Integração: o joint display dos celulares

Hipótese (origem) Evidência qualitativa Evidência quantitativa Teste Ajuste Consequência
H1: vulnerabilidade e baixo desempenho prévio aumentam o efeito (heterogeneidade relatada em três estudos) Explicação por autocontrole (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 106) Efeitos por subgrupo dentro dos estudos, ainda não extraídos Extrair efeitos por subgrupo; estimativa por nível com k ≥ 3; teste de diferença só com k ≥ 4 por nível e cerca de 10 estudos por característica; abaixo disso, estimativas lado a lado sem teste (Seção 8.1) A determinar Se confirmada, sustenta “Misto” e o moderador sai de “hipótese”
H2: fiscalização delegada ao professor reduz o efeito Um estudo qualitativo longitudinal (Grigic Magnusson et al., 2023) (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 98, 106) Nenhum estudo quantitativo codificou quem fiscaliza Não testável com 8 estudos; registrar lacuna Expansão, sem contraparte quantitativa Ponto de barreira na implementação e recomendação condicional; o artigo conclui que fiscalização só pelo professor tende a fracassar (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 109), mais do que a evidência sustenta
H3: nível de ensino e escopo da proibição (sala ou escola) explicam a heterogeneidade Limitações listadas pelos autores (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 109) Nível de ensino identificável por estudo; o artigo atribui a diferença para outra meta-análise à inclusão do ensino superior (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 105) Separar células; teste de diferença básico × superior só com k ≥ 4 por nível e cerca de 10 estudos por característica (Seção 8.1) Não se aplica: hipótese de origem quantitativa Células separadas

QCA não é recomendável aqui: são menos de 10 estudos, o que limitaria a análise a 2 ou 3 condições (Kahwati et al. 2016, 11), e 7 dos 8 estudos têm a mesma direção (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 104). Se a revisão crescer, a saída de Thomas et al. (2014) serve de modelo: desfecho “altamente efetiva” calibrado pela magnitude do g, com H1 e H2 como condições.

Caixa reconstruída

Linha Enunciado ou rótulo Regra Certeza Estado
Efeito Inconclusivo com a certeza muito baixa da Seção 10.7; Misto ou depende do contexto se a certeza chegar a baixa Efeito, ordem recomendada GRADE por célula, com assinatura humana Pendência no G8
Escala Faixa do campo fixada no protocolo (g = 0,22) Escala Não se aplica Pendência de protocolo
Força Insuficiente, se confirmada a certeza muito baixa Força GRADE por célula Pendência no G8
Mecanismo CMOC de redução de distração, com Porter et al. (2016) Enunciado com suporte primário CERQual baixa ou muito baixa (juízo humano) Revisar
Moderador Hipótese H1, com três estudos Moderador não testado Não aplicável até teste Hipótese
Implementação Moderada (3 pontos) ou Complexa (4) Pontuação CERQual pendente Codificar componentes nos estudos
Percepção Professores; alunos; pais sem suporte Um enunciado por ator CERQual pendente Revisar
Custo Custo monetário não reportado; custos não monetários com Wikström et al. (2024) Custo CERQual pendente Revisar

A reconstrução não diz que a política não funciona. Diz que a evidência publicada sustenta uma caixa mais cautelosa e mais informativa: o efeito médio não pode ser afirmado com confiança, há sinais de variação com contexto e implementação, e as hipóteses para essa variação estão escritas de forma testável. A transferência para a Lei nº 15.100/2025 e o Decreto nº 12.385/2025, que deixa a implementação às redes (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 108–9), está na Seção 10.7.

9.8 Erros comuns e como evitá-los

Erro Exemplo Como evitar
Chamar de síntese qualitativa um conjunto de frequências, nuvens de palavras e bigramas No pipeline REFIS, os blocos qualitativos são resumidos por tabelas de frequência, nuvens de palavras e redes de coocorrência (Schaefer 2026a) Representação visual não é síntese (Popay et al. 2006, 16). Frequências supõem a mesma variável em cada relato, e redes feitas de texto supõem que se saiba o que é um nó; sem regra de codificação que outro codificador reproduza, os achados podem não ter sentido (Small 2011, 76). Usar síntese temática ou best-fit e deixar a mineração de texto como apoio exploratório
Não nomear nem descrever o método de síntese qualitativa “foram identificados uma série de variáveis” (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 104) Declarar método, codificação e derivação de temas (ENTREQ 2, 17-19) (Tong et al. 2012)
Confundir força do efeito com tamanho ou significância Força do efeito como “tamanho do coeficiente, significância” (Schaefer 2026b, 25, 40); força registrada como “Efeito fraco” (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 108) Magnitude na escala; força pelo GRADE (Seção 9.4)
Concluir “sem efeito” a partir de não significância “não tem repercussão na proficiência” (Santos et al. 2019, 2233) “Nulo” só com IC dentro de ±δ e certeza moderada; senão “Inconclusivo”
Usar revisões como suporte de mecanismo, implementação ou efeito Duas revisões entre as quatro fontes do mecanismo; revisão citada como fonte de barreira de implementação; meta-análise como estudo (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 99, 104–7) Revisões só para bola de neve e comparação
Enunciado sem estudo rastreável “Amin et al., 2022” sem referência; enunciado de implementação sem suporte (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 106, 108) Toda célula aponta para id_rs e trecho; teste automático de célula sem fonte
Transformar um único relato qualitativo em recomendação firme Modelos com fiscalização pelo professor “tendem a fracassar” (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 109), com um único estudo citado para essa relação nos resultados (Schaefer, Borges, e Gomes Filho 2025, 106) Enunciado com CERQual e marcação de hipótese; recomendação não mais forte que a certeza
Codificação dedutiva sem livro de códigos nem confiabilidade Três categorias a priori sem descrição de codificação (Fonseca et al. 2023, 3) Livro de códigos com seis componentes e alfa de Krippendorff acima de 0,667 (Sampaio e Paula 2024, 266, 272)
Calibrar o desfecho da QCA por significância “Melhora” = ao menos uma medida significativa (Kahwati et al. 2016, 5) Calibrar por magnitude (Thomas et al. 2014)
Muitas condições para poucos casos 9 condições em 60 estudos, abaixo da razão recomendada (Kahwati et al. 2016, 5–6) Com menos de 10 estudos, no máximo 2 ou 3 condições; condições compostas guiadas por teoria (Kahwati et al. 2016, 11; Thomas et al. 2014)
Declarar revisão mista sem integrar 8 de 17 revisões não seguiam a metodologia declarada (Lizarondo et al. 2022) Joint display e cinco perguntas-guia (Stern et al. 2020)
Tratar a síntese qualitativa como ilustração do efeito Modelo de coadjuvante subordinado (Dixon-Woods et al. 2006, 32) Percepção e implementação com enunciados próprios; hipóteses qualitativas que podem mudar o rótulo
Deixar o LLM produzir temas analíticos ou CMOCs finais Delegação sem auditoria Tabela “quem decide o quê”; validação na Seção 12.1

9.9 Na skill revisao-sistematica

Contrato planejado (Seção D.5), sem detalhes além dele:

  • Momento do fluxo. A etapa 10 reúne síntese (comparabilidade, meta-análise ou SWiM, qualitativa, integração), certeza e caixa de ferramentas e termina no portão duro G8: no modo checkpoints a skill para; no autopiloto, G8 vira pendência e o relatório sai marcado “RASCUNHO NÃO VALIDADO”. Produtos em 06-analise/; referência operacional em references/07b-sintese-qualitativa-integracao.md.
  • Agentes. sintetizador-quali trabalha por tema, com as colunas do master de extração como entrada; revisor-metodologico revisa em G2 e G8. Resumo de subagente nunca é prova: só o que passa pela mescla e pelas checagens conta, e as junções são sempre por id_rs.
  • Codebooks e mapas. assets/codebooks/qualitativa.csv para a extração qualitativa; assets/mapas/caixa_ferramentas_mapa.csv liga variáveis a linhas da caixa. A extração com trecho verbatim e página é delegada a fichamento-sistematico, cujo gate de citação verifica os trechos.
  • Script. rs.py caixa só monta a tabela rastreável a partir das regras versionadas; cada célula guarda regra_versao, estudos, estimativas, certeza e assinatura, e os testes combinados nunca definem rótulo. O teste test_caixa exige que toda célula tenha fontes. Como GRADE e CERQual são juízos humanos, célula sem esse juízo não recebe rótulo definitivo: fica “Pendente” e vira pendência de G8. A ordem de precedência dos rótulos (a do quadro “Ordem de aplicação”, versão caixa-3), a regra da linha de painel e as definições operacionais dos critérios de implementação entram no protocolo com a versão da regra. O juízo de confiança do achado que explica a heterogeneidade vai em certeza.csv, numa linha de moderador ou mecanismo marcada como explicativa; sem ela, a célula com intervalo de predição largo e explicação alegada sai “Inconclusivo”. O G8 exige o arquivo de certeza com uma linha para cada célula de efeito e, em revisão OQF, a própria caixa.
  • Juízo humano. Temas analíticos, CMOCs, calibração de QCA e juízos CERQual são humanos; a skill registra quem aprovou.
  • Fora da versão 1. Síntese realista iterativa completa e QCA computacional: a skill reconhece o tipo, orienta por este capítulo e declara o limite.
  • Relatório. O template relatorio_oqf.qmd recebe a caixa e o joint display (Seção 11.10).

9.10 Como relatar

O relatório precisa conter, no mínimo: (1) o desenho misto e a justificativa; (2) o método de síntese qualitativa com referência, o quadro a priori e como os temas foram derivados; (3) quem codificou e a concordância; (4) como hipóteses qualitativas foram testadas ou por que não puderam ser; (5) o joint display; (6) as regras de rótulo, com versão, e a caixa com estudos e certeza por linha; (7) CERQual por achado e GRADE por célula; (8) desvios do protocolo. Exemplo de redação para a seção de métodos:

A síntese seguiu desenho misto sequencial-explicativo (Hong et al. 2017). A heterogeneidade e os estudos discrepantes identificados na síntese quantitativa por célula (intervenção × construto de desfecho) orientaram a síntese qualitativa. Os achados de estudos qualitativos, mistos e quantitativos descritivos foram extraídos verbatim, com página, e codificados contra um quadro a priori derivado da teoria do programa (best-fit framework synthesis) (Carroll et al. 2013); o que não coube no quadro recebeu codificação livre. Um segundo revisor codificou às cegas 20% dos estudos (no mínimo 10), com concordância por variável calculada e comparada aos limiares do protocolo; divergências foram resolvidas por consenso. Temas analíticos e configurações contexto-mecanismo-desfecho foram formulados pela equipe e avaliados com GRADE-CERQual (Lewin et al. 2018). Hipóteses explicativas foram testadas por análise de subgrupo quando havia pelo menos quatro estudos por nível; as demais foram registradas como hipóteses. A integração foi feita em joint display (Fetters et al. 2013). Os rótulos da caixa de ferramentas seguiram as regras da versão 1.0 do protocolo, inclusive a ordem de precedência entre rótulos e as definições operacionais dos critérios de implementação.

E, nos resultados, uma frase por linha da caixa com rótulo, estudos e certeza, por exemplo: “O efeito sobre desempenho em testes padronizados na educação básica foi classificado como depende do contexto (g = …; IC 95% …; intervalo de predição …; certeza baixa), com a variação associada, como hipótese, ao desempenho prévio dos alunos (três estudos; não testada por falta de estudos por subgrupo).”

9.11 Leituras

Normas e guias

  • Page et al. (2021): itens 13 e 20 do PRISMA 2020.
  • Tong et al. (2012): ENTREQ, relato de sínteses qualitativas.
  • France et al. (2019): eMERGe, relato de meta-etnografias.
  • Wong et al. (2013): RAMESES, relato de sínteses realistas.
  • Stern et al. (2020): revisões mistas no JBI.
  • Lewin et al. (2018): GRADE-CERQual.
  • Balshem et al. (2011): categorias de certeza do GRADE.
  • Wagemann e Schneider (2007): padrões de boa prática em QCA.
  • Greckhamer et al. (2018): limiares de consistência, PRI e robustez em QCA.
  • Oana e Schneider (2021): protocolo de robustez para QCA aplicada.

Leituras de apoio

  • Thomas e Harden (2008): passo a passo da síntese temática.
  • Thomas et al. (2003): matriz que integra visões e ensaios, antecedente do joint display em revisão.
  • Dixon-Woods et al. (2006): limites e tensões de incorporar pesquisa qualitativa em RS.
  • Pawson et al. (2005): lógica e passos da revisão realista.
  • Daker-White et al. (2015): meta-etnografia aplicada, com o valor dos achados refutacionais.
  • Kahwati et al. (2016): QCA dentro de uma RS e seus problemas de calibração.
  • Small (2011): desenhos mistos, sequenciais e concorrentes, e seus riscos.
  • Sampaio e Paula (2024): análise de conteúdo e QCA em português.
  • Schaefer, Borges, e De Freitas (2025) e Schaefer, Borges, e Gomes Filho (2025): a caixa de ferramentas e sua aplicação aos celulares.
  • Santos et al. (2019) e Fonseca et al. (2023): sínteses brasileiras tabular e integrativa, úteis como contraste.
  • Schaefer (2026c): quadro de métodos de síntese qualitativa do material didático.

Complementares

  • Carroll et al. (2013): best-fit framework synthesis, o método mais próximo do quadro OQF.
  • Popay et al. (2006): os quatro elementos da síntese narrativa.
  • Thomas et al. (2014) e El Sherif et al. (2024): QCA como síntese.
  • Hong et al. (2017), Lizarondo et al. (2022) e Fetters et al. (2013): desenhos mistos, falhas frequentes e joint display.
  • Sandelowski et al. (2013), Dalkin et al. (2015) e The RAMESES II Project (2017): enunciados portáteis, mecanismo e retrodução.
  • Johnson et al. (2015) e Education Endowment Foundation (2021): modelos de caixa de evidência com regras públicas.
Balshem, Howard, Mark Helfand, Holger J. Schünemann, et al. 2011. “GRADE guidelines: 3. Rating the quality of evidence”. Journal of Clinical Epidemiology 64 (4): 401–6. https://doi.org/10.1016/j.jclinepi.2010.07.015.
Carroll, Christopher, Andrew Booth, Joanna Leaviss, e Jo Rick. 2013. “‘Best fit’ framework synthesis: refining the method”. BMC Medical Research Methodology 13: 37. https://doi.org/10.1186/1471-2288-13-37.
Daker-White, Gavin, Rebecca Hays, Jennifer McSharry, et al. 2015. “Blame the patient, blame the doctor or blame the system? A meta-synthesis of qualitative studies of patient safety in primary care”. PLoS One 10 (8): e0128329. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0128329.
Dalkin, Sonia Michelle, Joanne Greenhalgh, Diana Jones, Bill Cunningham, e Monique Lhussier. 2015. “What’s in a mechanism? Development of a key concept in realist evaluation”. Implementation Science 10 (1): 49. https://doi.org/10.1186/s13012-015-0237-x.
Dixon-Woods, Mary, Sheila Bonas, Andrew Booth, et al. 2006. “How can systematic reviews incorporate qualitative research? A critical perspective”. Qualitative Research 6 (1): 27–44. https://doi.org/10.1177/1468794106058867.
Education Endowment Foundation. 2021. Teaching and Learning / Early Years Toolkit guide. Education Endowment Foundation. https://d2tic4wvo1iusb.cloudfront.net/documents/toolkit/EEF-Toolkit-guide.pdf.
El Sherif, Reem, Pierre Pluye, Quan Nha Hong, e Benoît Rihoux. 2024. “Using qualitative comparative analysis as a mixed methods synthesis in systematic mixed studies reviews: guidance and a worked example”. Research Synthesis Methods 15 (3): 450–65. https://doi.org/10.1002/jrsm.1698.
Fetters, Michael D., Leslie A. Curry, e John W. Creswell. 2013. “Achieving integration in mixed methods designs: principles and practices”. Health Services Research 48 (6pt2): 2134–56. https://doi.org/10.1111/1475-6773.12117.
Fonseca, Carlos Eduardo Guilarducci, Magnus Luiz Emmendoerfer, e Josiel Lopes Valadares. 2023. “A agenda de pesquisa da burocracia de nível de rua no contexto da pandemia: uma revisão integrativa”. Cadernos Gestão Pública e Cidadania 28: e85447. https://doi.org/10.12660/cgpc.v28.85447.
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Kahwati, Leila, Sara Jacobs, Heather Kane, Megan Lewis, Meera Viswanathan, e Carol E. Golin. 2016. “Using qualitative comparative analysis in a systematic review of a complex intervention”. Systematic Reviews 5 (1): 82. https://doi.org/10.1186/s13643-016-0256-y.
Lewin, Simon, Andrew Booth, Claire Glenton, et al. 2018. “Applying GRADE-CERQual to qualitative evidence synthesis findings: introduction to the series”. Implementation Science 13 (Suppl 1): 2. https://doi.org/10.1186/s13012-017-0688-3.
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Sampaio, Rafael Cardoso, e Carolina de Paula, org. 2024. Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política. Escola Nacional de Administração Pública (Enap).
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Schaefer, Bruno Marques. 2026c. Aula 6: Análise de dados: perspectivas quali, quanti e mista. Slides da disciplina Revisão sistemática e avaliação de políticas públicas (PPGCP/IESP-UERJ e MAPE), aula de 5 jun. 2026. https://osf.io/zs6h4/.
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