Tarefa·Pesquisa de Survey·
Jogo do bicho online: redesenho do questionário Datafolha (1988) para autoaplicação
Tarefa II · Pesquisa de Survey
Resumo
Nesta tarefa, reformulei para o formato online o questionário da pesquisa “Jogo do Bicho” do Datafolha (1988), com adaptações que o tornaram mais curto e focado na percepção sobre a legalização do jogo e na quantificação de quem já jogou. Evitei menções à ilegalidade e destaquei o anonimato para reduzir o viés de desejabilidade social. Também utilizei técnicas de branching, linguagem suavizada e perguntas mais concretas, seguindo recomendações metodológicas de Smyth (2016) e Krosnick (2018). As perguntas de perfil e mais sensíveis foram deixadas para o fim, com exceção da cidade e idade, que servem para filtrar os respondentes.
DicaPrincipais resultados
- O questionário original do Datafolha, aplicado em junho de 1988 em São Paulo e no Rio de Janeiro, virou um formulário online mais curto, focado na opinião sobre a legalização do jogo do bicho e na proporção de quem joga ou já jogou.
- Para reduzir o viés de desejabilidade social, o formulário se chama “Loterias formais e informais no Brasil”, não menciona a ilegalidade do jogo, destaca o anonimato e pergunta “Você por acaso já…”.
- As frequências passaram a ser concretas (nenhuma vez, 1 vez, de 2 a 5 vezes…) e referidas aos últimos 30 dias; a opinião sobre a legalização usa branching; e as perguntas de perfil foram para o fim, exceto cidade e idade, que filtram os respondentes.
Escolhas e justificativas
Nesta tarefa, reproduzi para o formato online o questionário da pesquisa “Jogo do Bicho”, conduzida pelo Datafolha em junho de 1988 nas cidades de São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ). O questionário original e as tabelas resultantes da condução da pesquisa pode ser encontrado aqui1. É possível acessar o link do questionário modificado, hospedado no Google Forms, aqui.
Realizei uma série de modificações, incluindo a escolha de uma quantidade menor de perguntas. No formato modificado, mais curto, o questionário permite medir a percepção da população sobre a legalização do jogo do bicho e oferece uma tentativa potencialmente mais eficaz de quantificar a proporção de pessoas que jogam ou já jogaram. Por outro lado, com a remoção de algumas perguntas, não é possível medir, por exemplo, o motivo que leva as pessoas a serem a favor ou contra a legalização. Para tentar diminuir a carga negativa atribuída a jogar no bicho (afinal, trata-se de um jogo ilegal) e tentar minimizar o viés de desejabilidade social, chamei o questionário de “Loterias formais e informais no Brasil”, evitando menções explícitas à ilegalidade. Como o título do questionário é visível ao usuário no caso online, essa modificação pode ser importante. Além disso, no texto inicial, deixei claro (inclusive marcando em negrito, conforme indicado por Smyth (2016)) que as informações do questionário são totalmente anonimizadas e que nenhuma informação fornecida permite identificar o respondente. Inclusive, ao questionar se o respondente já havia jogado alguma vez no bicho, reforcei o caráter anônimo do questionário e utilizei expressões como “Você por acaso já…”, tentando tornar a resposta mais socialmente aceitável (Smyth 2016, 224). No mais, o formato online acaba oferecendo uma vantagem metodológica para temas sensíveis como esse, já que a autoadministração pode, por si só, reduzir o viés de desejabilidade social (Smyth 2016, 224).
Algumas das perguntas também foram sensivelmente modificadas. Ao invés de perguntar, por exemplo, “Você costuma jogar na Loto mesmo que raramente? Com que frequência?”, evitamos a pergunta de duas questões ao mesmo tempo, separando a questão de afirmação/negação da questão de frequência, além de condensar diferentes loterias formais em uma única questão. A respeito da opinião sobre a legalização do jogo do bicho, fiz o branching da resposta para que o respondente, após concordar ou discordar, informasse o grau de concordância ou discordância (Krosnick 2018). Outros ajustes a serem destacados incluem as recomendações de Krosnick (2018) quando diz que “If what you want is a number just ask for the number.” (Krosnick 2018, 450): ao invés de questionar sobre frequências em termos abstratos (“frequentemente”, “raramente” etc), ofereço opções de resposta mais concretas (nenhuma vez, 1 vez, de 2 a 5 vezes e assim por diante), perguntando, inclusive, sobre informações nos últimos 30 dias – o que facilita a recuperação da informação por parte do respondente (Smyth 2016, 222). Por fim, utilizei a recomendação de Smyth (2016) (p. 219) de evitar deixar perguntas “[…] boring, embarrassing, or sensitive […]” no início do questionário. Por isso, as perguntas de perfil foram movidas para o final do questionário, com exceção da pergunta sobre a cidade de residência e a idade, que são relevantes para a filtragem dos respondentes2. Essa abordagem também oferece desafios, já que o respondente pode deixar o questionário antes de chegar ao final e, com efeito, as informações de perfil não estarão disponíveis para pós-estratificação. No entanto, como o questionário é curto, essa possibilidade é reduzida. Outro ponto de atenção no questionário é o fato de que a divisão das perguntas em diferentes seções, embora importante para separar as perguntas, pode oferecer ao usuário uma sensação de cansaço e acarretar a decisão de parar de responder antes do final.
A pesquisa foi publicada pelo Cesop em setembro de 2024, na ocasião da aprovação do projeto de lei que autorizou o funcionamento de bingos e cassinos e regularizou jogos de azar, conforme postagem do próprio Cesop no Facebook.↩︎
Indivíduos menores de 16 anos ou residentes fora do Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP) não devem responder ao questionário, conforme as especificações do desenho do questionário original.↩︎