Pesquisas eleitorais e voto: experimentos apontam a favor de quem lidera, mas a evidência é muito incerta

Autores
Afiliações

Felipe Lamarca

MAPE/IESP-UERJ

Lucas Berti

IESP-UERJ

Data de Publicação

30/09/2026

A síntese em resumo

Nos experimentos, as estimativas apontam a favor de quem aparece à frente, mas a evidência é muito incerta. Uma pesquisa de disputa apertada, e não folgada, provavelmente não muda o comparecimento em mais de 2 em cada 100 eleitores. Não achamos estudo sobre pesquisas com dados só do Brasil.

NotaO que esta síntese estudou

A síntese pergunta se ver uma pesquisa eleitoral muda o voto e a decisão de ir votar. Entraram 41 estudos, de buscas feitas até 20/09/2026. Agentes de inteligência artificial (IA) fizeram a maior parte do trabalho, com uma ferramenta que um de nós (Felipe Lamarca) desenvolveu para dividir tarefas entre pessoas e modelos de IA, descrita em https://felipelamarca.com/Systematic-Review/. Conferimos em bloco partes da busca e da seleção e os números tirados de cada estudo. Já a qualidade dos estudos e a confiança na evidência foram julgadas só pela IA, sem conferência humana.

Do que trata esta síntese?

No Brasil, as pesquisas eleitorais voltam ao debate quando as urnas se afastam do que os institutos mostravam: em outubro de 2022, projetos de lei propuseram punir quem divulgasse pesquisas que errassem além da margem de erro. Em 2006, o Supremo Tribunal Federal derrubou a proibição de divulgar pesquisas nos 15 dias anteriores à eleição.

Em tese, a pesquisa pode favorecer quem está na frente (efeito bandwagon) ou quem está atrás (efeito underdog). Pode também mudar a decisão de ir votar: uns desistem por achar a eleição decidida, e outros votam porque a disputa parece apertada.

Que estudos entraram?

São 41 estudos publicados de 2010 a 2024, a maioria dos Estados Unidos e da Europa. Muitos são experimentos de laboratório ou dentro de questionários, com candidatos inventados ou eleições simuladas. Outros observam eleições reais.

A síntese só junta estudos que fazem a mesma comparação, como ver ou não ver uma pesquisa. Cada comparação tem poucos estudos, de 1 a 4. O único estudo com dados só do Brasil trata da apuração parcial oficial da eleição de 2018, divulgada enquanto parte do eleitorado ainda votava, e não de pesquisa.

O que encontramos?

Nas duas comparações com mais estudos, os 4 experimentos de cada uma apontam para mais apoio a quem a pesquisa mostra na frente. Mesmo assim, a evidência é muito incerta, porque são poucos estudos, quase todos de laboratório ou com candidatos inventados. Parte desse padrão pode vir do voto estratégico – isto é, trocar um candidato sem chance por outro que pode ganhar –, e não da vontade de acompanhar a maioria. Sabe-se muito pouco sobre o tamanho do efeito.

Os achados sobre o comparecimento variam. No único experimento de campo, com 126.126 eleitores nos Estados Unidos, receber pelo correio uma pesquisa de disputa apertada, em vez de folgada, provavelmente não muda o comparecimento em mais de 2 em cada 100 eleitores. Note, no entanto, que diferenças menores que essa podem decidir eleições apertadas. Em dois estudos na Europa, sem sorteio, ter visto pesquisas divulgadas pode aumentar a intenção de votar ou o comparecimento. Num jogo pela internet, ver projeções que davam a vitória como mais certa pode reduzir a decisão de votar. Sobre a pesquisa de boca de urna divulgada antes do fim da votação, a evidência é muito incerta.

“Muito incerta” quer dizer que o efeito verdadeiro pode ser bem diferente do que os estudos sugerem. “Provavelmente” indica confiança moderada, e “pode”, confiança baixa.

O que isso significa?

A evidência não permite dizer que as pesquisas mudam o resultado das eleições, nem que não mudam. Do ponto de vista das regras de divulgação, ela não mostra, sozinha, que divulgar pesquisas muda votos, nem que não faz diferença. Cabe a quem tem mandato decidir quem deve provar o quê.

No Brasil, as pesquisas feitas no dia da eleição já só podem ser divulgadas a partir das 17h de Brasília, regra parecida com as estudadas em outros países. Para quem estuda o tema, faltam estudos maiores com eleições reais no Brasil, registrados antes da coleta dos dados.

Quais são os limites?

Agentes de IA buscaram, escolheram e leram os estudos. Aprovamos o plano e conferimos em bloco partes da busca e da seleção e os números tirados dos estudos, mas ninguém conferiu como a IA julgou a qualidade dos estudos e a confiança na evidência. Tampouco se estimou quantos estudos a triagem pela IA pode ter perdido.

A busca usou só duas bases e as citações dos estudos, sem a principal base de revistas latino-americanas, e não obteve 338 dos 522 textos procurados. A falta de estudos brasileiros é, em parte, uma lacuna da busca.

Até quando vai a busca?

As bases de dados foram consultadas em 19/09/2026, e as citações dos estudos, até 20/09/2026. Esta é a versão de 30/09/2026.

Leia a síntese completa, com os apêndices